sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Rubem Fonseca: "Não dá mais para Diadorim".

Como eu já esperava, causou mal-estar e estranheza nosso esvaziado último encontro do Conversando Literaturas, abrindo o ciclo do velho Rubem, o Fonseca, aquele que alimenta os pombos numa praça do Leblon e aplaude abstrusidades cometidas por jovens petulantes capazes de cometer livros como O matador. É claro que assim Diadorim vai pras cucuias: atimbora, porra.

Atarefado com os cargos e desencargos da Biblioteconomia, tive pouca ou nenhuma oportunidade de divulgar este novo ciclo de maneira adequada. Não afixei nenhum cartaz colorido nas entradas dos prédios nos campi, nem deixei nos murais dos armarinhos lembretes para o sensacional encontro - sequer alardeei, pelos puteiros, a chance única de Conversar Literaturas com um pornógrafo. Como Otavio teve um piriri súbito, Camila errou o caminho da sala 505 do bloco C e Lila preferiu furar mesmo, éramos poucos, mas empolgados e liberados, sem pruridos quanto a um taquiupariu mais premente, apesar dos ânimos anestesiados dos bravos não-ausentes.
Foi nesse clima de camaradagem que adentramos, sem retorno previsto, no mundo de Rubem Fonseca, cujo "realismo feroz", para usar expressão cunhada por Alfredo Bosi, caracteriza tão bem seus contos e romances. Com O outro, buscamos entender a transfiguração do pedinte que entrega nas mãos de seu benfeitor compulsório o caixão imaginário de sua mãezinha, recebendo em troca um tiro para aliviar todo o estresse que a culpa burguesa busca exorcizar ao ignorar a pobreza. O gravador, grotesco e arabesco, destacou-se pela fluidez dos diálogos e a solidão do personagem paralítico, confinado a uma cadeira de rodas e à invisibilidade social. Um dia na vida é exemplo de estória sem começo e fim, como sugere o título, e de exercício de refinado humor praticado por um dos escritores mais sacanas do Brasil. Mas todos esses contos, citados de passagem, resfolegam sublimes em Intestino grosso, realizado anos mais tarde em Secreções, excreções e desatinos.
Pro velho Rubem, uma casa onde nunca se ouviu um puta que pariu não pode ser normal, e o fato de que nossos avós apenas iam pra cama, ao invés de simplesmente foder, é algo por si só indecente. Como a estorinha de João e Maria, "sacanagem, no significado popular de sujeira que a palavra tem. E por isso pornográfica". Ciente de que Feliz ano-novo era prato cheio pra censura, escancarou de vez, alfinetando aqui e ali seus futuros algozes: "ao atribuir à arte uma função moralizante, ou, no mínimo, entretenedora, essa gente acaba justificando o poder coativo da censura, exercido sob alegações de segurança ou bem-estar público". A linguagem dita pornográfica é posta em xeque diante atitudes que são consideradas normais por muitos, como o grito das torcidas em dia de jogo no Maracanã, símbolo de catarse em nada diferente das funções excretoras e sexuais, comuns aos seres humanos, que encontram eco em palavras e expressões condenadas pelos mais sensíveis - e proibidas em suas representações pela mão de ferro do Estado. "Eu nada tenho a ver com Guimarães Rosa, estou escrevendo sobre pessoas empilhadas na cidade enquanto os tecnocratas afiam o arame farpado". Estou arrependido de ter escrito tanto até aqui, ao invés de simplesmente reproduzir a frase anterior - o epitáfio perfeito para sua obra.
Hoje li uma entrevista do Fausto Wolff publicada no JB. Acho que se enganaram, publicando a foto de um velho todo descaralhado no lugar daquele belo gaúcho que certa vez exibiu seu perfil de galã na quarta capa de O acrobata pede desculpas e cai. "Escrevi dois livros de contos porque estava na hora de escrever livros de contos. Talvez sejam meus melhores. Por outro lado, foi bom mostrar ao Fonseca que ele não é o único. Em verdade, odeio esse cara porque devo reconhecer que ele escreve melhor do que eu". Vai ser modesto assim na puta que pariu.
Atiê e TMMJCL...

p.s.: meu pai (o jovem grisalho da foto, na cabeceira da mesa) esteve conosco neste primeiro encontro, prestigiando este que vos tecla. como estávamos mansinhos, não presenciou nenhum de nossos clássicos arranca-rabos. quem sabe na próxima ele dá sorte e nos acompanha na cervejinha da praça.

3 Comentários:

Blogger Fabiano Morais disse...

bom texto, marlon. perdemos todos por você (ainda) não estudar a sério o rubem.
forte abraço.

28 de setembro de 2007 05:09  
Blogger Máximo Heleno Lustosa da Costa disse...

Acho que isto não foi um elogio, mas já gosto de pensar na literatura dos invisíveis de Rubem Fonseca...

É verdade, uma sociedade cheio de invisíveis precisa de uma literatura assim também...

Acertamos.

Abraço.

2 de outubro de 2007 10:07  
Blogger Toninho Moura disse...

Máximo, obrigado por visitar nosso blog. Seja nosso convidado para conhecer as outras aventuras do Capitão Ócio, e também para começar a montar o Fragmentos de um Romance.

Braços!

16 de fevereiro de 2008 09:21  

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